Projeto Mina leva novas perspectivas a meninas em situação de vulnerabilidade
Desde 2024, iniciativa já beneficiou mais de 60 jovens, oferecendo rodas de conversa, oficinas temáticas, atendimento psicossocial e oportunidades de empregabilidade de forma gratuita

O projeto do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) tem parceria com o Instituto Elas Transformam desde 2023 e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) desde 2024. A iniciativa oferece rodas de conversa, oficinas temáticas, atendimento psicossocial e oportunidades de formação e empregabilidade de forma gratuita.
A promotora de justiça Natália do Carmo Rios Anderáos explicou que a ideia surgiu a partir do Projeto Repensar Histórias, voltado inicialmente para adolescentes usuários de substâncias psicoativas. “Durante os encontros, percebemos que, para cada oito ou nove meninos, havia uma menina, mas elas não tinham espaço de fala”, relatou.
Diante disso, Natália revela que surgiu a necessidade de criar um projeto específico, com temáticas mais próximas da realidade das meninas. No processo de acolhimento, o Ministério Público convida a jovem e sua família para uma conversa inicial com o setor psicossocial. “Elas não apenas escutam especialistas: são estimuladas a participar, a falar, a refletir”, destacou a promotora, reforçando o caráter ativo e acolhedor da proposta.
O projeto
Criado em 2019, o Projeto Mina já beneficiou dezenas de adolescentes. Desde 2024, foram mais de 80. A iniciativa oferece atividades semanais, às quintas-feiras, das 14h às 17h, na Promotoria da Infância e Juventude. Neste semestre, estão previstos nove encontros, com encerramento em 11 de julho. As rodas são conduzidas por educadoras sociais, psicólogas e convidadas com experiência na defesa dos direitos humanos. Em um ambiente seguro, com escuta atenta e acolhedora, as participantes vão, aos poucos, se sentindo mais livres para falar e compartilhar sentimentos e vivências com o grupo.
A diretora do Instituto Elas Transformam, Amanda Leite, explica que, a cada semana, um novo tema é debatido. As discussões envolvem saúde da mulher, saúde mental e física, relações familiares, feminismo, redes sociais e educação financeira. “Ao final, elas fazem um planejamento abordando como elas se veem, quais são os sonhos. É realmente colocar no papel: como eu chego nesse lugar em cinco, dez, quinze, vinte anos”, destaca.
As participantes chegam em decorrência do envolvimento com atos infracionais e, de acordo com critérios estabelecidos, são selecionadas para participar do projeto. Desde 2024, quando a iniciativa passou a contar com o apoio do Unicef, as participantes recebem um auxílio mensal de 200 reais, além de transporte e alimentação durante os encontros. A bolsa, no entanto, está condicionada à frequência mínima de 75% das atividades mensais.
Mudando vidas
Histórias como as de Miriam*, Carolina* e Tatiana* se somam às de outras meninas que encontraram no Projeto Mina não só acolhimento, mas um ponto de virada em suas trajetórias. O projeto se mostrou importante para que elas ganhassem maturidade, reconhecessem seus direitos e, principalmente, construíssem uma nova perspectiva de futuro.
Miriam*, de 18 anos, sempre sonhou em cursar Direito, e encontrou no projeto o impulso necessário para trilhar esse caminho. Ela chegou até a iniciativa após se envolver em uma briga na escola, quando era menor de idade. “No meu primeiro dia, cheguei com muito medo, achando que teria que prestar serviço comunitário na rua ou até ser presa”, relembra. No entanto, a experiência foi transformadora. “Foi um acompanhamento muito bom, que me trouxe mais maturidade e me fez conhecer meus direitos como pessoa e como mulher. Nas rodas de conversa, vi que muitas meninas viviam situações parecidas com a minha.”
Carolina* e Tatiana* souberam do Projeto Mina pelo projeto social Rede Gol Transforma Vidas, que integra desporto e educação. A partir desse encaminhamento, iniciaram trajetórias marcadas por autoconhecimento, fortalecimento emocional e novos horizontes profissionais.
Graduanda em Gestão de Políticas Públicas na Universidade de Brasília (UnB), Carolina, de 19 anos, relata que a iniciativa abriu portas em diversos aspectos. “Me ajudou a superar o medo, a timidez, e principalmente a conversar. Percebi que outras meninas também passavam pelas mesmas situações”, conta. “Ainda estou me encontrando, mas o projeto me deu um direcionamento importante para o futuro”, acrescenta.
Tatiana, de 18 anos, é estudante de Educação Física na UnB. Ela afirma que o projeto provocou mudanças significativas na vida pessoal. “Antes, eu não falava sobre mim, não tinha esse espaço com outras pessoas. Foi ali que comecei a enxergar outras realidades.” Segundo ela, o projeto também revelou a diversidade de desafios enfrentados pelas participantes, o que ampliou sua visão e fortaleceu os vínculos entre as meninas.
*Nomes fictícios para preservar a identidade das jovens
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