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Ex-médico Marcelo Caron é condenado a 30 anos pelas mortes de duas brasilienses

O ex-médico Marcelo Caron foi julgado e condenado a 30 anos de prisão - 29 anos em regime fechado e um ano em regime aberto - pelas mortes das brasilienses Graziela Murta Oliveira e Adcélia Martins de Souza. A sentença, lida às 3h desta quarta-feira pelo juiz-substituto Germano Oliveira Henrique de Holanda, do Tribunal do Júri de Taguatinga, condena Caron a 14 anos e seis meses em cada uma das mortes.

No caso de Graziela Murta, os seis meses a mais na pena de 14 anos foram pelo agravante de deixar uma família sem o convívio de uma pessoa ainda jovem. No caso de Adcélia Martins de Souza, foram por ter deixado três crianças órfãs. O ano em regime aberto foi acrescido pela prática do exercício ilegal da medicina.

Os advogados responsáveis pela defesa de Marcelo Caron garantem que vão recorrer da sentença. O ex-médico vai responder ao processo em liberdade, por ter residência fixa e, segundo a Justiça. não apresentar ameaça à sociedade. O juiz Germano Oliveira não fixou indenização para as famílias das duas brasilienses, porque ambas já entraram com ações cíveis no Tribunal de Justiça do DF contra Caron.

A defesa de Caron, durante o julgamento, insistiu que os dois casos não deveriam ser julgados no mesmo dia e não concordavam com a classificação de homicído com dolo eventual, que foi o que prevaleceu. De acordo com a setença, mesmo não tendo a intenção, "Caron sabia que era muito provável de acontecer alguma coisa e, mesmo assim, assumiu a responsabilidade de realizar as cirurgias, além do motivo torpe, que era para obter lucro, mesmo sem ter especialização".

Para o promotor Leonardo Jubé de Moura, "a pena não traz de volta os parentes que estas pessoas perderam, mas resgata a dignidade das famílias, que esperam há sete anos pela decisão da Justiça, por conta das manobras da defesa, que tentou adiar o máximo o julgamento". Marcelo Caron, que saiu pelos fundos do Fórum de Taguatinga, não quis comentar a sentença, bem como seus advogados.

A setença contra Caron foi comemorada pelas famílias das duas vítimas. Para Tereza Murta, mãe de Graziela Murta, "esta foi apenas uma vitória". "Se fosse possível, queria uma pena maior, mas só o fato de ser em regime fechado já é melhor e vamos continuar firmes para as próximas batalhas", disse. Maria Martins de Oliveira, mãe de Adcélia Martins, se disse satisfeita com a pena. "Mesmo ele tendo direito de recorrer, tenho a certeza de que a justiça divina será feita."

Mortes

Graziela Murta tinha 26 anos em fevereiro de 2002, quando morreu em decorrência de complicações após uma lipoaspiração e Adcélia Martins de Souza, 39 anos em 29 de janeiro de 2002, quando seu coração parou na mesa de cirurgia, também durante um procedimento de lipoaspiração. Caron veio para Brasília após se envolver na morte de três mulheres em Goiânia. Outras 29 o processaram por causa de sequelas graves de operações como a lipoaspiração.

Durante todo o processo entre a acusação apresentada pelo Ministério Público do DF e o julgamento, o ex-médico tentou de diversas formas adiar o encontro com o júri popular. A última foi a troca dos seus três advogados, que foram substituído por Ricardo Silva Neves. Neves tentou ainda hoje que o juiz responsável pelo júri fosse o mesmo da época da instrução do processo e alegou que os dois casos deveriam ser julgados em separado. Mas nenhum dos pedidos foi aceito pelo magistrado Germano Oliveira Holanda.

O ex-médico falou com a imprensa em um dos intervalos do julgamento. Negou as manobras para atrasar a Justiça. "Mudei de advogado por questões financeiras. Não tenho mais condições de arcar com os custos do processo. Estou acabado financeiramente", garantiu.

Nove testemunhas foram interrogadas durante todo o dia. Diante das perguntas do juiz, do promotor e do advogado do réu, os fatos que levaram à morte de duas pacientes foram apresentados aos jurados; quatro mulheres e três homens escolhidos por sorteio. Os primeiros depoimentos foram os relacionados ao caso de Graziela Murta. "Ela veio para casa no dia seguinte à operação sentindo muita dor, tendo febre, vomitando. A gente ligava para o médico e ele dizia que era normal, que era manha dela e que não poderia vir de Goiânia porque estava cuidando do aras, dos cavalos dele", contou emocionada a mãe da vítima, Teresa Murta.

A anestesista da cirurgia, Olívia Mota, também depôs e disse que o procedimento ocorreu normalmente. "A única coisa diferente foi que ele previu que tudo duraria 40 minutos, mas acabou demorando quatro horas", disse.

O médico Nestor Junior foi o primeiro a falar sobre o caso da servidora da Terracap Adcélia Martins. O médico disse que foi chamado para ajudar em uma reanimação, no dia em que Adcélia fez a cirurgia de lipoaspiração e prótese nos seios. “A equipe estava trabalhando nisso há pelo menos 40 minutos com poucos resultados. Eu coloquei um marca-passo temporário, mas o sangue dela estava aquoso, não coagulava", contou o médico. O laudo cadavérico da vítima apontou a perfuração de artérias por uma cânula usada na operação como causa da morte — por hemorragia interna.

Durante sua defesa, o ex-médico contestou as provas e disse que nunca se recusaria a visitar uma paciente, como o que foi dito com relação a Graziela. "Nem mandei suspender a medicação dela, como alega a família. Isso seria uma irresponsabilidade. O caso dela era tão complexo que o problema só foi descoberto depois de 26 dias de internação", afirmou. Caron disse ao júri que não quer mais exercer a profissão de médico e que pretende concluir a faculdade de direito que iniciou, mas interrompeu por falta de dinheiro.

No discurso de acusação, o promotor Leonardo Jubé de Moura, destacou a falta de registro no prontuário médico dos procedimentos, como a inserção de uma cânula na axila esquerda de Adcélia, que o médico só confessou que fez depois do depoimento de uma anestesista e que não constava nos prontuários e também as duas inserções nas coxas de Graziela. A universitária morreu por infecção decorrente da cirurgia, sendo que o médico foi condenado por omissão no pós-operatório. A acusação destacou também o uso de documentação falsa pelo médico, para conseguir o registro de cirurgião plástico.

Condenação

A última condenação de Caron ocorreu em abril deste ano. O Tribunal de Justiça de Goiás o sentenciou a oito anos de prisão em regime semiaberto pela morte de Janet Virgínia Novais Falleiro, em 14 de janeiro de 2001. Também teve de pagar R$ 30 mil à família da vítima. A advogada não resistiu a complicações decorrentes de uma lipoescultura.

Caron recebeu condenação anterior na Justiça goiana. Em 2003, pagou R$ 88 mil a Marlene Maria Alves, uma das 17 pacientes com graves sequelas após se submeter a cirurgia com o ex-médico. Além das cinco mortes, ele responde a processos por estelionato, desvio de dinheiro público, formação de quadrilha, furto, uso de documentos falsos e falsificação de documentos públicos e particulares.

Fonte: Site Correioweb.com.br

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