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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Nas legendárias fábricas de charutos de Cuba, uma figura denominada “lector de tabaquería” ou, simplesmente, “lector”, faz leituras em voz alta para os funcionários que torcem folhas de tabaco, os “torcedores”. Antes do sistema da amplificação de som, ele trabalhava no gogó, e um dos requisitos para assumir tal função era justamente a potência vocal, conjugada com o talento para dramatização. Seus honorários competiam aos próprios “torcedores”, que votavam e escolhiam a obra. Assim trabalhavam com mais disposição.

Os autores mais apreciados eram os franceses, Balzac, Flaubert, Dumas pai – a famosa marca “Montecristo” não veio de outro lugar senão de sua obra-prima – e Victor Hugo, além de Cervantes, Shakespeare, Poe, Dostoievski. Ao saber disso, Victor Hugo enviou uma carta ao empresário do fumo Jaime Partagás, que foi lida a todos e devidamente respondida; depois, travou-se longa correspondência entre ambos. Quando estourou a guerra pela independência, senhoras cubanas pediram que o autor de “Os miseráveis” intercedesse junto às autoridades espanholas, e ele efetivamente o fez.

Com o advento do regime castrista (o pai de Fidel, por sinal, era galego e foi para a guerra na qualidade de “terceiro”, como era conhecido o enviado de uma família rica que não queria que o filho lutasse em Cuba, e então o substituía por outra pessoa), saíram de cena os romances consagrados da literatura universal. A revolução aproveitou para levar aos “torcedores” informações do jornal oficial Granma, planos quinquenais do governo, esse tipo de coisa. Os “torcedores” deixaram de remunerar o “lector”, sem dúvida. Não faz parte da mentalidade revolucionária ter –  ou mesmo querer – ter dinheiro. Seria mesmo o fim da picada pagar para ouvir declamação de obras da autoria de Fidel Castro. 

Jornal de Brasília - 20/2/2017

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