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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Um verso de Renato Russo sempre me intrigou: “quando penso em alguém, só penso em você”. 

Na música, a comunicação se reencontra com suas raízes proto-linguísticas (esta é uma tese da qual me ocuparei melhor um dia), à luz da sofisticação hoje alcançada em função de gradativas evoluções. Talvez tenham havido choques provocados por alguns mestres, mas o impacto de seus picos no eletroencefalograma do idioma demorou para ser absorvido e, mais ainda, superado. Nesses departamentos, a lentidão não é necessariamente um problema. Será bem vindo o dia em que Shakespeare for considerado não mais do que um poeta conspícuo dos confins da Idade Média.

Qualquer música com letra pode desbancar o oportunismo do mau poeta, que abusa do lugar-comum de que a sintaxe só é importante mesmo na prosa. Desde que a canção tenha uma melodia decente, a letra pode ser substituída pelo cantarolar ou assobio, ou por qualquer instrumento de sopro ou corda. Longe de mim profanar a memória de Vinícius de Moraes, mas a letra que ele colocou em “Lamento”, por juvenil demais, em nada enriqueceu a composição de Pixinguinha, exceto no convite a ser cantada por quem o quiser, e não apenas ouvida a partir daqueles que sabem tocar.

Pelas mesmas razões, por mais que eu ame as vozes de Ella Fitzgerald e Johnny Hartmann, ainda prefiro a versão de What is there to say só no trompete de Chet Baker, um violão acústico e nada mais. 

O verso de Russo pioraria demais se dissesse algo banal, como “quando penso em amor, só penso em você”, ou vice-versa. Pensar sem nenhuma ressonância ontológica, transformando o sujeito em uma entidade absoluta, e o objeto numa chimères sans fond (Victor Hugo), é obra mágica do amor apaixonado. No cômputo geral, “Por enquanto” me parece ambígua demais para chegar a tanto.

Jornal de Brasília - 1º/7/2013

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