MPDFT

Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Sujeito vê a foto de uma paisagem e a acha bonita. Mas a pergunta é: o que ele acha “bonita” é a foto ou a paisagem? É enganoso isso. O que ele vê não é a paisagem. Esta só pode ser vista olhando-se para ela, com os próprios olhos; não há outro jeito. A foto não é a paisagem, e sim o seu retrato, que vem a ser uma maneira peculiar e indireta de se ter acesso àquela. Então, o que lhe agrada esteticamente não é de fato a paisagem, e sim a foto: eis a resposta que está no gabarito.

Ora, uma foto pode perfeitamente ser bonita, e o objeto retratado, não. Exemplo: as fotografias de Sebastião Salgado conseguem ser belíssimas, ainda que mostrem lugares miseráveis, gente feia. Essa, por sinal, é a primeira das diferenças entre o nu artístico e o não-artístico. No artístico, o objeto do retrato precisa ser propedeuticamente bonito – ou, por outra, melhorado, falsificado com truques tecnológicos. Quanto mais bonito, maior a chance de facilitar a arte do fotógrafo. Mas o melhor fotógrafo do mundo teria dificuldades em transformar em arte uma pessoa desprovida de atrativos físicos, senão em um sentido de “bom gosto”, e não como valor erótico. Sim, porque pornografia tem tanto a ver com as curvas do corpo quanto com o ângulo das poses. Desde a primeira edição, essas revistas mensais sempre exploraram a mesma a fórmula: mulheres bonitas e pernas fechadas.

Portanto, a ideia da fotografia como algo além da mecânica de se apertar o botão da máquina, e revelar uma mensagem poética ou política, não homologa o conceito escolástico de correspondência. Sebastião Salgado não quis vender gatas malhadas, e sim apontar para sentimentos agudos em contextos dolorosos. É a mesma coisa que se experimenta em uma exposição de fotos sobre o holocausto,em que o sujeito é indagado se gostou: sim, adorei.

Jornal de Brasília - 28/1/2013

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