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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Na mais famosa frase atribuída a si, Sócrates afirmou que só sabia de uma coisa: que nada sabia. Nada sabia, mas sabia disso, e era só. Era um nada que era tudo.

Se essa sentença se comprometer à sua literalidade, uma contradição boba ficará patente. Se o sujeito sabe que não sabe nada, então de nada não se trata. O nada teria que vir entre aspas - problema que Sócrates não precisou enfrentar, pois não escreveu a frase, e proferida verbalmente as aspas são invisíveis - ou haveria de se fazer uma reformulação, alterando-se o "nada" para o "quase nada". A frase perderia seu efeito.

Mesmo o sujeito mais obtuso sabe algumas coisas, nem que seja dados rudimentares sobre si mesmo ou sobre o ambiente onde se situa. É mais provável que o idiota desconheça o seu pouco de maneira introvertida, sobre o qual não pode fazer uma reflexão, posto que breve, a fim de aprimorar as condições objetivas de sua existência, libertando-se do empirismo sufocante da vivência direta, do próprio peso de seu corpo.

Ou então fecha-se a porta da reflexão que possa ser explicada a outra pessoa, transformando a experiência individual em algo, digamos assim, mais artístico.

É essa última questão, a intelectualista, a que interessava a Sócrates. O seu apotegma é menos uma confissão miserável do que uma concepção vital, cujo móvel é a necessidade de conhecer e a possibilidade de aprender.

Esse é o papel do filósofo: o de "metaxy", que vem a ser o intermediário entre o sábio e o ignorante. Aquele não procura o saber porque já o possui; este não possui o saber nem o procura. O que Sócrates quis dizer foi precisamente isso: que não sabe, mas por saber que não sabe, busca saber. É um tormento que se convola em mobilização, em sentido moral.

Essa busca é movida por - eu sei que isso vai soar estranhíssimo - amor. Do grego colhe-se a expressão "tà erotiká", as coisas do amor: o desejo de beleza dos corpos, destes para as almas, destas para as ideias, e destas para o bem.

Jornal de Brasília

 

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