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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Aprendemos com o papai e com a mamãe, e também na escola: não devemos ser egoístas. Não podemos pensar só na gente, achar que o que nós queremos é o que importa, que não há nada mais relevante no mundo do que os nossos próprios desejos e vontades.

Isso é verdade, a lição está correta, e ela é reforçada a todo o instante em que a vida dá uma cacetada na nossa cabeça. Somos castigados difusamente quando não temos consideração pelos outros, a começar pelo gesto aparentemente indolor de cumprimentar alguém, bons dias, boas tardes, boas noites, como vai, tudo bem. Depois que você fica com fama de mal educado, as pessoas passam a não mais te cumprimentar - ou seja, passam a não mais falar com você, a te evitar, a te isolar. Isso é uma forma de punição, de enquadramento de alguém cujo comportamento rebelde verruma as regras do convívio social.

Aliás, tal modalidade de punição, por ser de aplicação espontânea, costuma ser a mais eficiente. É impossível se abrir mão do convívio social, salvo no caso do suicídio social, que é aquele cometido pelos que preferem viver na montanha, como ermitão. Convenhamos, esses são pouquíssimos. A partir do momento em que domesticamos a natureza e conquistamos os luxos da tecnologia, não queremos mais voltar - só para argumentar por um exemplo didático -- à carne crua, obtida pela rapinagem de segunda mão. As beatitudes fajutas do "estado edênico" são facilmente desmascaráveis (vejam um filme intitulado "A ilha", com aquele Leonardo DiCaprio, e verão).

Mas o altruísmo (altro = outro), oposto ao egoísmo (ego = eu) também tem lá seus limites. Se levarmos a sério demais a lição de que não podemos pensar só na gente, o resultado será um desastre. Pegarei meu salário, darei para os pobres e ficarei à míngua. Ou melhor: nem terei salário, porque cederei meu posto a outra pessoa. Bem se vê que essa concepção moral não é viável, porque essa outra pessoa a quem dei meu lugar, por sua vez, teria que dar seu lugar a outra, e assim por diante.

Jornal de Brasília

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