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Ivaldo Lemos Junior
Procurador de justiça do MPDFT

Quando uma pessoa é boa, ótima, excelente, excepcional ou padrão hors concours (alguém como Usain Bolt, Art Tatum, ou Lyudmila Pavlichenko) em qualquer atividade que se possa imaginar, é porque houve uma feliz combinação de dois fatores: talento e treinamento.

O primeiro é natural, o sujeito tem ou não, nasceu com ele ou não. Se você trocar o termo “talento” por “facilidade”, tudo fica mais claro. Por exemplo, quem vê John Travolta bailando no filme “Embalos de sábado à noite” percebe obviamente que os passos são ensaiados (e de gosto bem duvidoso), mas aquilo parece fácil para ele, que tem molejo, tem um gingado que a grande maioria dos homens não têm, e imitadores desengonçados correm o risco de fazer papel ridículo.

Contudo, não podemos dizer de Ryan Gosling em “La La Land” o mesmo de Travolta. Gosling se empenhou, teve disciplina para suar nos ensaios, que devem ter durado bastante, e fez até um bom trabalho, mas só. Bom, nada mais, nitidamente ele é um dançarino com talento que chega até certo limite e não passa, por mais que se esforce.

Michael Phelps ganhou 28 medalhas olímpicas em sua carreira, quase todas de ouro. Um dia na vida ele descobriu que seu negócio estava na água, que seu futuro era molhado. Decerto quando garoto, entrou na piscina e notou que era mais rápido do que os outros, bem mais. Daí foi nadando, nadando, nadando, participou de campeonatos juvenis, ganhou bolsa de estudos, caiu nas malhas de treinadores que enxergaram seu potencial, superou as próprias marcas e as alheias. Durante anos e anos, sacrificou-se com práticas intensas, exercícios complementares, alimentação e sono regrados. Isso sem falar no que o olho público não vê, rotinas maçantes, longas viagens, frustrações, indisposições, invejas, saudades da namorada ou mera falta de vontade de entrar na raia e fazer outras coisas ou não fazer nada.

Phelps é uma mistura de muito talento e muito treinamento, mas nós não estaríamos aqui falando dele se tirássemos da equação um dos advérbios “muito”, ou os dois. É fácil chegar a essa conclusão. Tantos nadadores foram menos excelentes e ganharam “somente” umas poucas medalhas olímpicas, o que é bem mais do que conquista a massa dos atletas da modalidade. Ian Thorpe mereceu 9 medalhas, 5 das quais douradas, e foi muito inferior a Phelps mas muito superior a quase todos os concorrentes, como o nosso Gustavo Borges, que pôs no peito 2 pratas e 2 bronzes. E lembre-se: Phelps não ganhou todas as competições de que participou.

O quanto frustra você, leitor, não ser tão bom quanto Phelps ou, mais modestamente, Thorpe, Borges e assim por diante? Se o exemplo da natação não te cativou, transporte todo o raciocínio desenvolvido até aqui para área de atuação profissional pela qual você optou. Você tem talento? Se sim, poderia ter aperfeiçoado mais na batalha contra o monstro do comodismo? Você, advogado, escreve e fala bem? Você, delegado, é corajoso e hábil para matar charadas? Você, juiz, é imparcial e tem humildade para usar sua autoridade como ferramenta de justiça e não de perseguição e favoritismo? Vocês todos trazem dentro de si a vocação para o direito ou se satisfazem em administrar suas trajetórias como ganha-pão mais ou menos ambicioso? Seus projetos são maiores ou menores que a capacidade de superação?

Essas perguntas conjuram o conceito do “homem massa” de Ortega y Gasset, que não designa o sujeito mediano e sim aquele que, nas palavras do filósofo espanhol, “não se angustia com isso, sente-se bem por ser idêntico aos demais”. E, ainda, “tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe a toda parte”. O homem massa não exige nada de especial dele mesmo, mas vai além, ao invadir o espaço reservado para sua nêmesis, que Ortega chama de “minoria” -- sem deixar de ser massa.

E se você se olha no espelho, examina com cuidado e sinceridade brutais, e não vê nada de mais? É alguém sem talento algum ou com talento minguado. Tudo o que faz, faz mais ou menos, ou nem isso, está aquém da média da profissão que escolheu e nem tem certeza se a escolha foi boa. O que fazer? Ortega não dá conselhos, só oferece uma resposta parcial, que mal serve de consolo: “esse homem se sentirá medíocre e vulgar, mal dotado; mas não se sentirá ‘massa’”. Ora, já sabíamos que dos males, o menor.

E o funcionário público? Que forças que o impulsionaram para o rito de passagem do concurso, uma técnica de arregimentação de mão de obra a cada dia mais saturada (na verdade, os três elementos, certame, estágio probatório e estabilidade estão em desequilíbrio e se juntam para sabotar um dos princípios da Constituição, no artigo 37: o da eficiência), e o labor diário na repartição, onde talvez goste pouco ou nada do ambiente, do serviço, do salário? E de onde quer ir embora o mais cedo possível, nos expedientes, em finais de semana, folgas, férias, licenças, aposentadorias? Queria uma ocupação burocrática e pouco empolgante, porém sólida, com chances remotas de demissão? Ou foi movido pelo desejo profundo de servir ao cidadão, pela paixão de ser útil, usar a inteligência e força de trabalho como instrumento de realização do bem à população nos limites da responsabilidade?

Que mal me pergunte, existe vocação dentro do funcionalismo público? Quem nasceu para Defensoria não deveria ir para a Polícia e vice-versa, ou onde passar no concurso, passou, como em um jogo aleatório de paciência?

P.S. Vamos fazer justiça a Ryan Gosling, que é um dançarino meão mas um instrumentista excelente. Ortega diz que o homem massa é “vitalício e sem poros”; ele “se sente perfeito” porque oblitera tudo o que não está dentro de sua alma, de “um conjunto de ideias dentro de si” com o qual se contenta perfeitamente. Gosling toca piano de verdade no filme, o que aprendeu em aulas particulares quase do zero e se aprimorou espetacularmente em pouquíssimos meses. Não há trucagens nem enganações nas imagens. Quando o assunto é música, sem poros Gosling não é.

Os textos disponibilizados neste espaço são autorais. Eles são a livre manifestação de pensamento de seus autores e não refletem, necessariamente, o posicionamento da instituição.

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