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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

É sabido que a palavra “ciência” causa um certo fascínio, um deslumbramento. As pessoas esperam que “a ciência” se manifeste sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis e é sempre dela a palavra final.

Este artigo pretende relembrar o que não há de verdadeiro nesse retrato, isto é, o seu lado exagerado ou caricatural.

1 – Não existe propriamente “a ciência”. Existem ciências diferentes que se ocupam de seus objetos de estudo, e, quanto mais complexos forem esses objetos, mais disciplinas solicitarão a mesma atenção. O que muitas vezes ocorre é falta de diálogo entre as especialidades, quando não incompatibilidade em um clima de rivalidade mesquinha, enciumada.

2 – “A ciência” jamais poderia ter a pretensão de atrair para si e abraçar a verdade absoluta e em definitivo. Muito pelo contrário, todas as suas verdades partem de fatos relativamente abstratos e conduzem a resultados relativamente precários, que podem e devem ser superados por estudos mais recentes e mais profundos. Não existe “comprovação científica” porque uma tese nunca pode ser provada, e sim reprovada ou “falsificada”.

3 – Uma pretensão legítima da ciência é, essa sim, a de universalidade, ou seja, a tese só pode ser científica se fizer “asserções acerca de todas as regiões espacial-temporais do mundo” (Popper). Uma linha de defesa explorada pelo advogado em um processo criminal é uma tese, mas não científica, porque só vale para aquele caso concreto. Quanto mais viável for o isolamento do objeto do estudo, de preferência construindo-se um modelo artificial, como se faz na química, física e astronomia, maior a chance de precisão do domínio das leis, com testes e contra-testes. Algumas teses são tão vitoriosas que deixam de sê-lo e se transformam em “paradigmas”.

Jornal de Brasília

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