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Ivaldo Lemos Junior
Procurador de justiça do MPDFT

O filme A lista de Schindler não é fácil de se assistir. Conduções forçadas de pessoas aos montes, humilhações, espancamentos, fuzilamentos, gaseamentos, exumações para fins de carbonização -- nada disso é agradável, ainda mais quando inflamado por gargalhadas de boches, que depois alegariam que apenas obedeciam os superiores; ordens são ordens. O fundo musical de John Williams suaviza o desconforto das cenas, que são fictícias, mas que causam impacto idêntico aos episódios verdadeiros. Passado quase um século, o mundo ainda tem dificuldade de acreditar em tudo o que aconteceu e o cinema ajuda na absorção da realidade.

Mesmo se você não suporta o filme, o final merece ser conferido. No dia 8.5.1945, Oskar Schindler juntou os “seus judeus” no campo de concentração que dirigia, fez uma preleção anunciando que a Alemanha se rendera, a guerra acabou e ele seria preso, pois era membro do partido e lucrou em negócios com o governo. Os judeus sabiam bem que o campo privado era uma fábrica de munição que não produzia nada, só dava prejuízo e foi montada única e exclusivamente para protegê-los.

Schindler chamou os guardas, disse que a função deles era eliminar os prisioneiros e aquela era a oportunidade ideal para fazê-lo. Mas eles tinham a opção de voltar para casa como homens, não como assassinos. A passagem lembra a mulher adúltera levada a Jesus. Ela estava condenada à morte por apedrejamento e o Cristo, que nada tinha com isso, sugeriu que atirasse a primeira pedra quem não tivesse pecado. Todos foram embora, a começar pelos mais velhos. 

Com Schindler, os primeiros a sair foram os mais jovens. Os mais velhos saíram a contragosto, talvez na expectativa cassândrica de que a sujeição hierárquica não absolveria seus pecados nazistas. Tribunais do Povo fechariam as portas. Mas quem sabe os de exceção não fossem tão vingativos.

Jornal de Brasília - 20/11/2024

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