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Ivaldo Lemos Junior
Procurador de justiça do MPDFT

Uma história bem brasiliense: no dia 27.8.1977, um adolescente de 13 anos caiu no fosso das ariranhas do Jardim Zoológico e foi resgatado por um sargento de 33 anos, que estava de folga e passeava no local com a mulher e os quatro filhos. O garoto foi salvo mas o homem não teve a mesma sorte, pois foi atacado pelos bichos, sofreu mais de uma centena de mordidas e morreu de infecção generalizada três dias depois, no mesmo hospital em que trabalhava, o HFA.

O feito foi reconhecido. O Zoológico ganhou oficialmente o nome do herói, Silvio Delmar Hollenbach, com direito a um busto e uma placa (embora ninguém diga “vou ao Silvio” ou “ao Hollenbach”, como os mais antigos chamavam o Parque da Cidade de “Pithon”). Uma busca na internet mostra que seu nome inspirou ruas em cidades de seis unidades da Federação, e mais uma escola em sua cidade natal, no RS, além do auditório do HFA.

A internet também revela que a família do falecido nunca recebeu qualquer manifestação de gratidão da parte do sobrevivente. Às vezes tudo o que as pessoas querem é o conforto de ouvir um breve “muito obrigado” ou um “perdão” (atenção: pedir desculpas e pedir perdão são coisas bem diferentes e até opostas. Desculpar é tirar uma culpa que não existe, como, e.g., num esbarrão involuntário, enquanto que perdoar é tirar uma culpa que existe, como em um empurrão proposital).

Mas a história bem brasiliense ainda não acabou. O garoto cresceu e, na faixa dos 50, caiu em outro fosso: foi preso em uma operação da Polícia Federal que apurava rombo de bilhões de um fundo de pensão. Desconheço o fim que isso teve, se é que teve. Nunca sabemos o que pensar quando essas operações são deflagradas, nem se advogados vão safar seus clientes das mordidas do processo, por heroísmo ou por honorários. Mas desconfio que o sargento trocasse sua vida pela do menino mesmo assim.

Jornal de Brasília - 14/6/2023

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