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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Famoso musical conta a história de um homem comum, Benjamin Barker, pelos idos do século XIX, em Londres. Ele é barbeiro, casado com uma mulher bonita, tem uma filhinha bonitinha e é, objetivamente falando, feliz. Ao menos leva uma vida sossegada e burguesa. Isso mesmo, burguesa, naquele sentido em que Victor Hugo especificou o termo.

Mas os Barker vão desmoronar porque entraram no radar de um sujeito chamado Turpin. Esse Turpin é um juiz célebre e um patife de marca, que dá um jeito de tirar Benjamin da jogada (em lance de ativismo processual, fabrica um pretexto e o exila na ilha de If, ou melhor, na Austrália) e toma para si a mulher e a menina.

Nada acontece com o malvado, que segue bordejando todo pimpão pela cidade, na base da solércia e da “ultima ratio regum” concretizada por seu entourage; e ninguém se atreve a fazer coisa alguma. Pelo jeito, Turpin pertencia a uma instância da magistratura acima da qual não havia como estancar suas arbitrariedades.

Claro, um dia Benjamin volta. Já não é o homem de antes. Está embotado e faminto de vingança. Até sua identidade mudou: agora ele atende por Sweeney Todd. A profissão é a mesma, mas ele não usa suas habilidades para raspar cabelos e sim degolar os que se sentam em sua cadeira, como num balão de ensaio; dá para adivinhar a cabidela de quem está salivando para esguichar. Depois puxa uma alavanca, o corpo cai em um alçapão e a carne é canibalizada à revelia da sociedade.

Turpin era um pseudo-burguês que não conseguiu se sub-rogar no amor da mulher e da filha de outro homem. Nem conseguiria. A afeição conquistada com chantagens e prisões não passa de um simulacro fajuto. Sua função pública ela própria não se consolida pelo temor – talvez um pouco, ninguém fica indiferente quando recebe uma intimação judicial – e sim pela autoridade merecida pela transcendência moral.

Jornal de Brasília - 14/9/2022

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