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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

A Terra gira em torno do Sol, certo? Mas a impressão que se tem é a oposta (não faltaram modelos científicos ecléticos como o Tychônico, em que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno orbitavam em torno do Sol e este e a Lua se moviam em volta da Terra. Urano e Netuno ainda não existiam e até hoje não sabemos o que fazer com Plutão).

É o que se percebe pelo sentido da visão. De forma alguma parece que a Terra saiu do lugar e o Sol, esse sim, nitidamente se movimentou. Nasceu em uma ponta, varou o firmamento ao longo das horas e morreu no outro lado; então chegou a noite e ficou escuro (ou ficou escuro porque chegou a noite, dá no mesmo).

A propósito, a luz que nos alumia neste exato instante foi gerada cerca de oito minutos antes. Mas há quem sustente a incidência de outras variáveis e o atraso pode chegar a milhares de anos. Portanto, se o Sol se apagasse agora, o mapa astral somente seria acessível um pouco ou muito mais tarde – realidade que não tem absolutamente nada de evidente.

Como não é evidente tampouco o fato de que nosso planeta esteja boiando a 107.000 km/h em sua elipse translativa e em torno do próprio eixo a uma velocidade de 1.700 km/h. É assustador imaginar que, se a Terra parasse por uns breves segundos, tudo sairia pelos ares, até o ar atmosférico sairia pelos ares. Depois tudo cairia, mas carros e casas ficariam destroçados e nem daria para contar o número de mortos. Não haveria vivos suficientes para inumá-los.

Estou dizendo tudo isso para concluir que, no sistema solar do direito, as coisas não são tão óbvias quanto parecem. É pouco confiável se valer do artifício do “está na lei”. Muita coisa está escrita sim e as palavras fazem sentido, mas exatamente que sentido é esse pode ser uma ratoeira insidiosa, a produzir resultados tão díspares quanto milênios e milênios ou só uns poucos minutinhos.

Jornal de Brasília - 27/4/2022

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