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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

 

O conhecido O Alienista, conto longo (ou pequeno romance, se preferir) lavrado pela pena profundamente irônica de Machado de Assis, colocou na pauta a questão da sanidade mental, quem é louco, quem é normal, quem deve ficar trancafiado num hospício, quem merece viver aqui fora.

Estamos século e meio à frente dessa estória. Se a psiquiatria é até hoje vista com reserva ou receio, imagina no final do século 19. Essa especialidade abraçou conceitos e tratamentos que não deixaram saudades, mas nas mãos de pessoas sérias, bem intencionadas; o alienista do título, Doutor Simão Bacamarte, era um estudioso de prestígio internacional.

Não é apanágio da psiquiatria a ostentação de elementos exóticos. Boa parte do teatro de Molière foi dedicada a zombar das superstições e charlatanices da ciência da medicina – que conseguiu dar a volta por cima até se firmar como a mais respeitável das ocupações. 

Pois o próprio Bacamarte decidiu se casar com uma Evarista da Costa e Mascarenhas porque concluiu que a moça “reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem”, a saber: “digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista”. 

Após anos fracassando na missão de dar ao marido herdeiros “robustos, sãos e inteligentes”, Dona Evarista se submeteu a um “regime alimentício especial”, consistente exclusivamente na ingestão de carne suína. Tal dieta foi fruto de “estudo profundo da matéria”, com a leitura de doutrinadores árabes e consultas a faculdades alemãs. 

Na vida real, um grande médico suíço do século 18, Auguste Tissot, publicou três livros célebres. Em um, recomendou a pessoas sedentárias e introspectivas caminhadas, canela, noz-moscada, erva doce e cerefólio. Em outro, sustentou que a masturbação poderia levar à loucura. Não tenho certeza se sua obra foi pesquisada pelo Dr. Bacamarte.

Jornal de Brasília - 24/2/2021

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