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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

No filme “The box”, uma caixa com um botão vermelho é deixada na porta de um casal com dificuldades financeiras. Senhor distinto e casquilho bate na casa com uma proposta: se a mulher apertar o botão, ganha um milhão de dólares mas alguém que ela não conhece morre. Se a proposta não for aceita, a caixa é recolhida e passar bem.

O casal fica confuso, delibera sobre o que fazer. “Uma pessoa desconhecida morrer”, convenhamos, não é preocupação que tire o sono de ninguém. Todos os dias morrem milhares que não conheço e não estou nem aí. Se me apresentarem uma lista de todos os estranhos que faleceram ontem, nos últimos dias, nos últimos meses, com nome, idade, nacionalidade, causa mortis (de preferência não Covid 19), tudo isso para mim é indiferente. Um a mais, um a menos, tanto me dá.

O problema é o milhão. Muito tentador, mas por que alguém daria a mim essa bolada? Aperte você mesmo o botão, oras. Obviamente há algo de sinistro nisso tudo e meu assassínio incruento selará um contrato sinalagmaticamente diabólico.

E o botão é apertado, num impulso. Imaginam por quem? Pelo marido? Pela mulher? Pela mulher. As mulheres são curiosas, nem sempre no bom sentido; são filhas de Eva, aquela que cometeu o único pecado possível. Adão também escorregou no botão, ou seja, comeu do fruto, que pendia na árvore da ciência do bem e do mal. Ele colocou a culpa em Eva. Eva culpou a serpente. Foram ambos exonerados.

Essa é uma das razões porque Machado de Assis era tão bom. Ele sabia (vejam o capítulo LX de “Brás Cubas”) que homens e mulheres foram feitos de substâncias diferentes, barro e carne, e que esta sangra e pulsa e aquele cai e quebra. Mas os esquematismos machadianos nunca eram monolíticos. Mesmo na “fase romântica”, Guiomar e Helena não foram Penélope ou Lucrécia. Nem Virgília e Sofia eram Herodíades ou Lady Macbeth.

Jornal de Brasília - 17/6/2020

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