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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Se você ganhasse o super poder de ficar invisível, o que faria? Agiria como Giges, da “República” de Platão, que aproveitou para matar o rei e tomar para si a rainha e o trono?

Essa pergunta não é muito boa, porque a hipótese tem componentes demasiado artificiais. Convenhamos, Giges obteve invisibilidade ao se apoderar do anel de um gigante morto, que estava dentro de um cavalo de bronze, quando foi resgatar suas ovelhas (Giges era pastor) que haviam sido tragadas por um terremoto.

O máximo que se extrai desse exercício moral é descartar a chance de sair matando quem você não gosta e roubando o que não consegue comprar ou, no extremo oposto, fazendo caridade, e.g., na entrega de alimentos ou álcool em gel para entidades caritativas sem que ninguém visse.

O dilema de Heinz é mais realista, ainda mais em tempos de peste. Não é de surpreender que alguém ousasse quebrar o vidro do laboratório para furtar cloroquina (ou outra droga que dizem por aí ser salvífica) e tentar poupar a vida da esposa, infectada com o vírus corona. Nas altas do desespero, ninguém se preocupa se há autorização da Anvisa ou “comprovação científica”.

Mas observe o seguinte ponto: se o sujeito assim proceder, ele estará sendo dedicado à esposa e prejudicando não apenas o laboratório em seus interesses mesquinhos, mas as demais pessoas que também precisam do remédio e que se encontravam em uma situação de saúde ainda mais delicada. Ajudar a mulher e não eventuais desconhecidos parece ser uma decisão óbvia, mas tem um lado nefasto, bem nefasto.

No filme “As palavras”, um escritor mal sucedido encontra um manuscrito anônimo. Lê, acha-o excelente e o publica como se fosse de sua lavra. Triunfa, ganha prêmios etc. Engana a todos, menos a ele mesmo e o verdadeiro autor, que um dia aparece, segurando a chave da gaiola de ouro em que havia se trancafiado.

Jornal de Brasília - 27/5/2020

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