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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

“Imagine”, de John Lennon, é praticamente o hino mundial da paz. Logo nas primeiras notas de um riff melífluo (dá até para dançar lento) e inconfundível de piano, é policitada a irrecusável concórdia entre os povos. Mas a canção merece ser um símbolo da harmonia entre as nações tanto quanto a política do guerrilheiro Che Guevara.

 

Se você prestar atenção na letra, verá que ela convoca a se pensar que não existem Céu nem Inferno, e que acima das pessoas só há o firmamento. Tudo isso é tão fácil, basta tentar. Vamos viver apenas o presente. Nada de religião.

Acontece que também existe no mundo a expectativa do futuro - a dimensão profética da história, como diria Julián Marías -, e é natural se preocupar com isso, ou ao menos pensar nisso, não só na hora supostamente derradeira. Na escatologia de “Imagine”, há menos coisas entre um céu com um sentido meramente astronômico e uma terra que acoita a podridão das pessoas condenadas à morte.

A poesia não para por aí. Também deplora geopolítica e propriedade privada e, dessarte, a humanidade estaria “compartilhando todo o mundo”; este seria “um só”. Ora, não há necessidade de fantasiar. O nazismo colocou tudo isso em prática, tentando abolir o judaísmo abolindo os judeus, além de extorquir o alinhamento do cristianismo católico e do luterano à política, à luz de uma espécie de demiurgo arianizado. O governo usurpava territórios perdidos (e outros novos), matando e pilhando à vontade. O genocida inevitavelmente é um latrocida serial.

Um ano antes, Lennon compôs “God” (Deus) e ali disse que não acreditava em nada - nem em Hitler, mencionado expressamente -, senão nele mesmo e na mulher, Yoko Ono. Não sei se há uma linha de continuidade entre os devaneios musicais do ex-Beatle, mas Yoko pelo menos está viva até hoje. Já Hitler não teve a chance de acreditar em John Lennon.

Jornal de Brasília - 15/4/2020

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