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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Outro dia vi um documentário sobre o Michael Jackson. Dois homens que conviveram com ele, na infância, contavam abertamente como era o relacionamento. O modus operandi foi idêntico em ambos os casos. Michael tomava conhecimento de algum garotinho que era seu fã e fazia apresentações como sua versão mirim.

O primeiro passo era atrair a família inteira. Os parentes, anônimos e de classe média baixa, ficavam deslumbrados com o fato de uma estrela internacional se interessar por eles, dando-lhes atenção e acolhendo-os em suas mansões espetaculares, onde recebiam tratamento royal.

Michael passava a impressão de ser uma alma limpa (não vou dizer “branca”), sem maldade. Com a voz melíflua e pródigo em carinhosos eu-te-amos e que-saudades, esbanjava confiabilidade. Era um crianção. Pedia aos pais para que o garotinho (um deles era um australiano de 7 anos que aparentava 5) dormisse com ele, o que era permitido porque, afinal, que que tem? Com o tempo, o astro afastava a família e ficava com o garoto sob sua asa, por longas temporadas.

Enfim sós, Michael investia aos poucos. Em um momento inicial, o que fazia eram conversinhas, beijinhos, carícias. Depois, avançava mais e mais, até conseguir tudo o que você puder imaginar. A fachada de inocência, que enganou muita gente, era expulsa de vez do quarto. Quando se cansava do menino, Michael o colocava na geladeira e ele não tinha mais acesso ao cantor, até finalmente ser trocado por outro.

Onde quero chegar é o seguinte. Como você acolhe essas histórias? Os depoentes pareciam sinceros e se expunham de maneira vexatória, as versões eram intrinsecamente consistentes e coerentes entre si. Mas será tudo verdade? Quase tudo? Uma parte? Qual parte? Em que momento o verossímil se torna verdadeiro ou segue sendo apenas uma possibilidade, ainda que mais ou menos provável?

Jornal de Brasília - 16/10/2019

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