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Ivaldo Lemos Junior
Promotor de Justiça do MPDFT

Permita o leitor uma emenda a meu artigo Serei breve, de 31.3.2021, que relembrou o poema Sinto vergonha de mim e o creditou a Rui Barbosa. Apenas a parte derradeira do poema, declamado no Senado Federal em 1914, era um enxerto de autoria da “Águia de Haia”. O restante foi escrito por outra pessoa, Cleide Canton. 

Dos trechos colacionados verbo ad verbum – “triunfar as nulidades”, “floreios para justificar atos criminosos” (o “floreios” veio em aspas) e “agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus” –, o primeiro e o último são de Rui e o do meio é de Cleide. 

Registrada a correção, acrescentemos o seguinte. 

Dizem que Rui foi o nosso Cícero, ou seja, o mais talentoso orador que o país já conheceu, mas não existem gravações de alguma atuação sua ou mesmo de sua voz e ninguém poderia afirmá-lo senão na base cautelosa do “é considerado”. Aliás, Cícero é Cícero em um lance da história que se consolidou mas cuja justiça há muito não redime sua hipoteca e quem sabe não funciona apenas como um paregórico escaninho mental. 

Candidato a ouro na modalidade retórica destes chãos foi o temido Carlos Lacerda. Raciocínio agudo, língua afiada e locução impecável, Lacerda foi responsável direto pelo suicídio de um presidente da República e pela renúncia de outro. 

Quem quiser incursionar no vernáculo, numa diligência pelo Lácio sem sair do lugar, tem a chance de se debruçar sobre o “Adeus a Machado de Assis” (Rui, agora só ele, fez tais exéquias, dizendo que o recém-falecido “soube viver intensamente da arte, sem deixar de ser bom”. Bom?), ou então sobre o próprio Machado na brevíssima e aparentemente improvisada prédica de inauguração da Academia Brasileira, em 1879. 

Ele tinha acabado de fazer 40 anos e é improvável que fosse orador brilhante (era gago, não se sabe o quanto), mas não consigo encontrar uma única palavra a aprimorar a peça.

Jornal de Brasília - 28/4/2021

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